O desejo moderno “fashion” dos tempos modernos é a crença de que há pílulas magicas para resolver o sofrimento humano.
A patologização da alma, que é o processo de transformar comportamentos, emoções ou dificuldades normais da vida cotidiana em doenças ou transtornos médicos/psicológicos, atribuindo-lhes um status de patologia e buscando soluções biomédicas, tonou-se a pedra de toque dos tempos atuais.
Mas será que o uso de fármacos para "corrigir" aspectos da subjetividade humana realmente funcionam assim milagrosamente?
Vejam o que disse o pai da psicologia moderna Carl Young sobre o assunto numa carta a uma paciente:
Jung sobre como enfrentaria a depressão:
"A uma destinatária não identificada - EUA
Küsnacht-Zurique, 09.03.1959
Prezada N.,
Sinto muito que esteja tão atormentada. "Depressão" significa em geral "pressão ou coação para baixo". Isto pode acontecer mesmo que não se tenha o sentimento de estar "em cima". Por isso não gostaria de abandonar esta hipótese sem mais. Se eu tivesse de viver num país estrangeiro, procuraria alguma ou mais pessoas, que me parecessem amáveis, e me tornaria de certa maneira útil a elas, para receber libido de fora, ainda que de uma forma algo primitiva como o fez, por exemplo, o cachorro, sacudindo o rabo. Criaria animais e plantas, que me dessem alegria com o seu desenvolvimento. Eu me cercaria de coisas belas – não importa se primitivas ou simplórias – objetos, cores, sons. Comeria e beberia coisas gostosas. Quando a escuridão viesse, não descansaria até penetrar em seu cerne e chão e até que aparecesse uma luz no meio do sofrimento, porque a própria natureza se inverte in excessu affectus. Eu me voltaria contra mim mesmo com raiva, para que no calor dela se derretesse meu chumbo. Renunciaria a tudo e me dedicaria à atividade mais humilde, caso minha depressão me forçasse à violência. Lutaria com o Deus sinistro até que me deslocasse o quadril, pois ele também é a luz e o céu azul que retém diante de mim.
Seria isto o que eu faria. O que outras pessoas fariam é uma questão que não sei responder. Mas também para a senhora existe um instinto: arrancar-se para fora disso, ou entrar até as profundezas. Mas nada de meias-medidas ou meio entusiasmo. (...)
Com votos cordiais,
Sinceramente seu
(C.G.)"
Jung, Cartas - Vol. III pág. 201-202.
Carl Gustav Jung (1875–1961) foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica, uma das abordagens mais influentes na psicologia moderna. Ele é conhecido por conceitos fundamentais como o inconsciente coletivo, arquétipos, individuação, extroversão e introversão, e sincronicidade. Seu trabalho integra ciência, filosofia, religião, mitologia e arte, buscando compreender a psique humana como um todo simbólico e espiritual.
