A gíria "mala" (ou a expressão idiomática "mala sem alça") surgiu de uma analogia direta com o objeto físico: algo pesado, estorvo, difícil de carregar, inconveniente e que gera grande incômodo.
Aquela pergunta, se toda pessoa que usa mala é mala? Eu digo depende? A maioria dos viajantes dirão, sim com certeza, mas eu diria que nem sempre, porque as malas podem ser uteis para viagens de mudança, ou quando a pessoa vai sempre circular de carro para superfícies lisas, limpas e planas como o piso de mármore dos aeroportos, hoteis e vice-versa, mas para circularem por superfícies irregulares, vias públicas, rugosas, terra, escadas, gramados, barro, lama, calçadas, etc, e se hospedarem em casas de amigos, malas não são indicadas, assim como em caronas, quando a pessoa quer ser gentil e você surge com uma mala, sendo bem “mala”.
Nas demais situações, as mochilas são mais práticas, simpáticas e bem-vindas por serem flexíveis e maleáveis para encaixar e se amoldar aos mínimos espaços, e assim ganham das malas por 10 a 1 usualmente. Esse 1 é quando a pessoa alega dores nas costas que decorre quase sempre da pessoa comprar a mochila errada, que não distribui o peso nos quadris e sobrecarregam os ombros, mas ainda assim sempre haverá os que alegam sentir dores de qualquer maneira e os que não se identificam com a alma aventureira/mochileira, e preferem o comodismo das malas mesmo, apesar de haverem mochilas hibridas com rodinhas também.
Em princípio não há nada de errado com a escolha da mala, porque também é uma questão de gosto, estilo, comodismo. preguiça e idade, se bem que a
vovó mochileira começou sua volta ao mundo aos 67 anos, então o problema talvez não seja idade propriamente, mas o problema a se evitar mesmo, é ser uma pessoa
mala! Infelizmente a maioria das pessoas que escolhem mala, terminam sendo “
mala” ainda que a razão da escolha fosse só preguiça e comodismo mesmo, mas como não conseguem depois lidarem com o trambolho, acaba sobrando para os outros e para o anfitrião que precisa conviver com uma Van estacionada dentro de casa.
Vejamos:
A pessoa não consegue erguer a mala, caminhar com a mala, se virar sozinha com a mala, nas múltiplas situações que surgem em qualquer viagem que é quando a pessoa não consegue lidar com a mala. Ela não é independente nem autônoma com sua mala e mesmo sem querer, a dependência acaba incomodando todo mundo em volta com a “maletagem” que não raro acaba sobrando até para desconhecidos.
Na maioria das vezes, o usuário da mala, não consegue encaixar a mala no carro, não dá conta de tirar, guardar, suspender, mover a sua mala sem ajuda e sem “causar”, nas mais diversas situações em meios de transportes variados, e lugares barrentos, chuvosos, escadas, praia, etc, etc além de ainda parecer uma Van estacionada no quarto, na sala, barraca ou qualquer outro local atravancando o ambiente de quem vai receber ou dar carona para ”o mala”. Sem falar que o anfitrião terá que arranjar uma superfície horizontal para o hóspede “mala” apoiar a bendita e mais espaço para a tampa que vai abrir e para isso não raro precisa readequar o ambiente para a “Van” que ficará estacionada ali.
Pior mesmo é quando a pessoa não tem ajudante de ordens, motorista , escravo, limusine, taxi, não está indo para nenhum aeroporto, só está indo passear na casa de alguém, praia, campo, e/ou coisa parecida, precisa de carona ou Blablacar e aparece toda sem noção com a mala rodando nas vias imundas com cocô de cachorro, lama etc, e ainda não consegue nem levantar a mala para colocar e tirar do carro que normalmente também nem tem espaço para a mala, ou então a pessoa não consegue nem se mover até um ponto de encontro da carona por causa da mala!!! É a quando a pessoa que usa mala acaba sendo mala, arcaica, datada careta, ou seja, o verdadeiro “mala sem alça.”
Segundo a Thais uma motorista de blablacar que carrega 5 (cinco) pessoas num Kwid 4 vezes por semana, fazendo o trajeto Caragua- São Paulo, não há nada mais “mala” do que o passageiro sem noção, pé-rapado, que anda de blablacar e aparece com mala com se fosse viajar para Dubai e ainda sobra para ela porque todo “mala” não consegue lidar e nem acomodar a própria mala com as rodinhas pestilentas de rodar nas calçadas e vias sujas da cidade, e ainda reclama se alguma coisa ou objeto arranhar a mala do “mala”.
Eu mesmo, poderia escrever um livro com dezenas de situações em que viajei com pessoas “mala” nas quais sobrou para mim, mas vou contar só um único caso pavoroso para exemplificar.
Certa vez nos anos 80 ou 90 por aí, fui com uma pessoa fazer um tour pela Europa e como sempre enjambrei tudo na minha fiel companheira Fit Trekkink 50L, e a pessoa com a qual iria viajar apareceu no aeroporto com uma mala, uma sacola e uma frasqueira e quando vi a cena já saquei o amadorismo e pensei; Danou-se! Fiquei já desconfiado porque ela se vendia tão aventureira, descolada e tal, e de repente percebi que era só mais uma “mala.” Mas enfim já era tarde.
A primeira escala foi em Bruxelas debaixo de uma nevasca, fizemos uma conexão para Londres onde, pegamos a bagagem, tomamos o metrô e eu com os dois braços livres não aguentei ver ela se matando desajeitada com a “mala” mais uma sacola e frasqueira e então me ofereci e assumi a sacola. Argh!
De Londres fomos para Paris, mesma história, até o taxi nos deixar num hotel onde tínhamos uma reserva. Quando chegamos o atendente nos disse que não havia nenhuma reserva e o hotel estava lotado.
Diante da nossa estupefação, e a noite caindo, um frio desgraçado e nevando, o recepcionista com pena da gente, disse que andássemos rua abaixo e dobrássemos à esquerda na oitava quadra, que possivelmente encontraríamos vários hotéis mais simples onde seria possível descolar um pernoite e assim começamos a jornada “mala” e inglória.
Eu com minha mochila equilibrada, poderia andar uns 15 km fáceis, mas com uma sacola pendendo sobre um dos ombros me desequilibrando, era um tormento naquelas vias todas de paralepípedo molhadas e escorregadias.
Depois de muito andar parando de hotel em hotel sem nada encontrar uma rodinha da mala se foi, mas ainda dava para a dona arrastar a mala mais ou menos, mas logo as outras foram esfarelando e ela não conseguia mais se mover. Dei a sacola para ela e coloquei a mala na cabeça feito um retirante dos anos 50 para continuarmos porque para variar, a pessoa “mala” nunca dá conta da própria escolha e depende das frágeis rodinhas feitas só para o mármore dos aeroportos e, sempre sobra para os outros que não tem nada a ver com mala do mala.
Ela não conseguia andar direito porque a sacola pesava pendendo para um lado só do corpo dificultando a locomoção (porque depois da mala a sacola é outra tragédia) e eu já desesperado achando que íamos passar a noite na rua e com ódio daquela situação mala, mas enfim depois de uma excruciante jornada achamos um hotel muquifo de um português que ainda perguntou se queríamos quarto com banheiro e quando dissemos sim ele falou; Ah vocês são brasileiros e é provável que queiram um banheiro que tenha chuveiro, né?
E assim foi a viagem inteira, colocando e tirando a mala dos taxis metrôs, balsas etc., e arranjado lugares para estacionar a mala para depois abrir, etc...
Situações malas, parecidas com essas já vivi dezenas porque quando você viaja e sai da segurança do lar, tudo, mas tudo mesmo pode acontecer e é bom que se tenha garantida a sua autonomia básica que é a capacidade de locomoção, independente e autonomia, sem incomodar ninguém e sobretudo para poder fazer frente ás vicissitudes sem pesar na dos outros e sem ficar rendida, sem poder reagir e com cara de vítima e de “mala”.
E por mais que os guias de viagem ensinem os mandamentos básicos de que toda a bagagem deve se consubstanciar num ÚNICO VOLUME, e que você precisa estar capacitado a lidar com esse volume, as pessoas “malas” seguem com suas malas, frasqueiras, sacolas, maletinhas e sendo “malas” com esses múltiplos volumes e incapacidade de lidar com eles em qualquer situação adversa e sem perder/esquecer nenhum deles e principalmente sem pesar na de ninguém.
Quando o viajante tem mala + maleta + frasqueira + nécessaire + sacolinha de cosméticos + bolsinhas com remédio etc, etc, isso e aquilo, ele precisa estar sempre atento, vigilante e contando os vários volumes para não perder nada, ao invés de apenas 1 (um) volume que mantém o viajante autônomo, seguro e relax, sem falar que precisa ser quase como um polvo para catar tantos volumes e seguir viagem e como ele não é um polvo acaba sobrando para os outros.
E ao se locomover/arrastar penosamente com vários volumes, braços e mãos sobrecarregados, a linguagem corporal comunica fragilidade-confusão e portanto, presa fácil e, ao contrário, se você atarraxar sua mochila e único volume ao corpo mantendo braços e mãos livres, seu gestual comunica autonomia, capacidade de defesa, evasão, independência e, disposição para o que der e vier, etc.
Sempre aparecerá algum mala com a justificativa “ah, mas tenho filhos”, quando é justamente o contrário porque esse é o momento de educar já desde pequeno ensinando a eles organizarem suas mochilinhas e a ficarem independentes ao invés de ficarem o tempo todo atrás da mãe perguntando onde está isso e aquilo, porque as crianças aprendem com exemplos.
A mala tipo arca de Noé, pode ser mais cômoda na hora de partir porque se joga de um TUDO lá dentro, fecha o zíper e segue, ao contrário da mochila que exige organização minuciosa e compartimentação dos somente itens necessários, mas começa justamente aí a educação racional para a vida também evitando o surgimento de mais uma pessoa mala nesse mundo.
Resumindo: Se não for viajar de aeroporto para aeroporto e hotel, não seja “mala”, “careta”, “mané” e nem “presa”. Seja autônomo e independente!
Mas se ainda assim quiser carregar mala, não ande de carona, tenha seu carro, ajudantes, motoristas, carregadores, fique apenas em hotéis e principalmente nunca estacione a sua Van (mala) na casa de ninguém sendo “mala” com os outros.