quarta-feira, 22 de julho de 2015

O emburrecimento do Brasil


Comentario que fiz em relação ao imperdível texto do Regis Tadeu:  Até alguns anos atrás, logo após a redemocratização a gente costumava acreditar que em 30 anos o Brasil seria transformado como aconteceu com a Coreia, mas passados os 30 anos, nada aconteceu e em certos aspectos regredimos: Hoje o Brasil apesar de continuar a ser a 7ª economia mundial, está mergulhado na obscuridade mental e imerso no ódio estúpido, na breguice, na sexualização precoce, no assassinato sistemático dos LGBT´s, na música lixo e segue a lista... 
A classe dirigente, (que é a elite do país e mais classe merda) que deveria impulsionar o desenvolvimento é ainda em sua grande maioria atrasada/colonialista e emperra e/ou sabota qualquer tentativa de redução da desigualdade e/ou avanços tendo como arma a grande mídia familiar/hegemônica e a religiosidade. Então quando surge uma fagulha, um alento de sobriedade como a tentativa de implantar ciclovias, regulamentar a união de pessoas do mesmo sexo ou corredores exclusivos para transporte público, etc, o governante já é esculachado e xingado de comunista, gay, aborteiro, ladrão, etc... pois o que acham chique na Zoropa, combatem aqui porque tem ainda a mente de senhor de engenho... Afff!
Enquanto os vizinhos do Brasil já debatem soluções para temas espinhosos como o casamento gay, descriminalização de drogas, aborto, a tolerância, a boa convivência entre os contrários, etc., aqui estamos na contramão do mundo enaltecendo o extermínio dos “maconheiros, veados, aborteiros, comunistas, mendigos, índios, menores”... etc., por trás do discurso-disfarce idiotizante e religioso de defesa dos “valores” e da família tradicional com o apoio das bancadas do boi, da bala e da bíblia que juntas dão o tom retrógrado. Emoldurando este quadro séptico, temos som desse sertanojo que infesta cada fresta desse Brasil, tipo Luan Santana, “barabará bereberê”, "tche tche rerê tetê" e segue ladeira abaixo com a redução da maioridade penal, as tentativas de derrubar da presidente eleita e o discurso pseudo-moralizante para manter o país na idade média e os pobres longe dos aeroportos e shopping Centers.
Então a música de certo modo apenas reflete esse momento sinistro, reacionário, obtuso e até de desumanização do povo brasileiro pelo emburrecimento geral. O Brasil ficou mais Luan Santana e menos Caetano. Esta é atriste verdade. Na minha percepção, além do emburrecimento e da vulgarização, estamos ficando também mais violentos e trocando a compaixão pela indiferença.
Não acho que vamos desenvolver e nem melhorar em mais 30 ou 50 anos. O País não é pequeno como a coreia ou Cingapura e as complexidades são tantas... e então quando vemos um congresso tão medíocre como o atual cujo presidente se esmera em criar o dia do “orgulho hétero”, dá vontade de mudar para Benin.
Como disse Tom Jobim certa vez, “o Brasil não é para iniciantes”

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O golpismo maquiado

Até bem pouco tempo atrás era inimaginável que poderia haver quebra da legalidade e a democracia brasileira parecia relativamente madura tanto que, quando houve golpe branco no Paraguai para a deposição do presidente Lugo, vimos aquilo com uma certa tristeza pela debilidade política do vizinho, mas como no dito popular, nada como um dia após o outro, o inimaginável se materializou aqui e agora -pasme-, é o Brasil que flerta perigosamente com a “debilidade” afastando-se de ser uma democracia madura, lembrando mais uma república de banana com suas reviravoltas políticas de tão triste memoria na crônica política do continente.
Ressentidos até a medula com a derrota nas últimas eleições (ainda por cima para uma mulher), políticos irresponsáveis aliados à mídia familiar deram curso a um 3º turno sem fim para depor a presidente eleita. Para isso o PSDB passou até a votar “suicidamente” contra seu próprio programa somente para inviabilizar a governança num vale tudo sem precedentes, turbinando um ódio insano e ações coordenadas com capilaridade em vários órgão públicos que inclusive, municiam setores reacionários da imprensa engajados no projeto golpista que conta também com representantes escamoteados aqui e acolá em vários partidos descontentes com suas participações no butim.
Ajudados pela mídia gorda, os golpistas utilizam-se da técnica de criminalizar os adversários, para criar e inflar uma situação limite, instrumentalizando os analfabetos políticos agora apelidados de “a nova direita” requentando o caldo ditatorial que sobrevive dormente, como um substrato miserável na alma de alguns infelizes odientos que desconhecem limites, esquecendo-se de que ao contrario de 1954 quando criaram o mar de lama para derrubar Getúlio, temos desta vez a internet para fazer contraponto às mentiras e tramas para maquiar o golpe em marcha, com aparência de legalidade.
Resta-nos, pois ir para as ruas contra a quebra da legalidade democrática e fortalecer a ideia de respeitar o resultado das eleições, evitando a sabotagem atual a qual estão submetendo o país.
Querem governar o país? Que se prepararem e se habilitem para ganhar as próximas eleições e abandonem a velha tática golpista de ganhar no tapetão.

sábado, 4 de julho de 2015

Às Claras

O ano passado o assunto foi a copa e consequentemente o fracasso que seria bla,bla... Agora é a operação lava jato que já ceifou 14 mil empregos nos estaleiros, e segundo projeções de economistas isentos e até psdbistas já causou 200 bilhões de prejuízos a economia do país e é oque deve continuar a ser a "atração novelística" da vez -sim porque parece que nada mais acontece no mundo-.
Enfim, QUEM define a pauta e o que vai ser noticia/espetáculo no Brasil?  Porque até hoje ninguém sabe quem é o dono do Jatinho que matou Eduardo campos? ...ou porque sumiu do noticiário rapidamente o caso rumoroso de um helicóptero carregado com meia toneladade cocaína? E a operação zelotes que trata dos desvios na receita federal que envolve cifras e valores astronômicos que faz da lava jato troco de pinga, mas também não deu ibope e sumiu da telinha!? ..., e de novo “quem” pauta  os corações e mentes do povo brasileiro??? A quem interessa a crise? Quem ganha com ela e quem fatura com a fragilização da Petrobras entre outras cositas? Porque a reforma política que propunha acabar com as doações privadas para campanhas políticas foi derrubada e o único partido (PT) que votou integralmente contra as doações de campanha é justamente o que é pautado diuturnamente como o mais corrupto!? Com que propósito?
A organização Às Claras.Org divulgou o mapa das contribuições que parece intrigante, né não!?

sexta-feira, 12 de junho de 2015

TRAGÉDIA !

Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco

"Normalmente, eles [os imbecis] não tinham espaço para dar vazão á sua imbecilidade ou eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel",

Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".
A declaração foi dada nesta quarta-feira (10), durante o evento em que ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália.
"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", disse o intelectual.
Segundo Eco, a TV já havia colocado o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", acrescentou.
O escritor ainda aconselhou os jornais a filtrarem com uma "equipe de especialistas" as informações da web porque ninguém é capaz de saber se um site é "confiável ou não".
Fonte:http://noticias.terra.com.br/educacao/redes-sociais-deram-voz-a-legiao-de-imbecis-diz-umberto-eco,6fc187c948a383255d784b70cab16129m6t0RCRD.html

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Thomas Piketty mata a cobra e mostra o pau!

"A dívida pública é uma piada. A verdadeira dívida é com o capital natural"

A degradação do capital natural é um risco muito maior. Esta é a verdadeira dívida. A 'dívida pública' com que nos enchem os ouvidos é uma piada!


Enquanto o desemprego atinge recordes em alguns países europeus, evidenciando o fracasso da política neoliberal, o economista Thomas Piketty lembra que a desigualdade tem um papel central na situação atual. Ele critica vigorosamente os pregadores do crescimento infinito e conclama a uma refundação do pensamento econômico que leve em conta o "capital natural".
 
Qual a principal inspiração do seu livro O Capital no século XXI?
 
Meu trabalho desconstrói a visão ideológica de que o crescimento levaria automaticamente à diminuição da desigualdade. O ponto de partida da pesquisa foi a coleta, numa escala até então inédita, de dados históricos de rendas e patrimônios. No século 19, os economistas davam muito mais ênfase à distribuição de renda do que seus congêneres viriam a fazer a partir do meio do século 20. Mas, no século 19, havia poucos dados disponíveis. E até recentemente, este trabalho não tinha sido realizado de forma sistemática como fizemos, cobrindo dezenas de países, e mais de um século. Isso muda muito a perspectiva.
 
Nas décadas de 1950 e 1960, a visão dominante, e muito otimista, expressa sobretudo pelo economista Kuznets, era que uma redução espontânea da desigualdade ocorreria nos estágios avançados de desenvolvimento industrial. Kuznets tinha, de fato, constatado, em 1950, uma redução da desigualdade em comparação com 1910. Estava relacionada com a Primeira Guerra Mundial e a crise da década de 1930. E Kuznets sabia disso. Mas, na atmosfera da Guerra Fria, havia a necessidade de encontrar explicações otimistas – dirigidas especialmente aos países em desenvolvimento: "Não se tornem comunistas! O crescimento e a redução da desigualdade andam de mãos dadas, é só esperar".
 
Mas vejamos: nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos, a desigualdade encontra-se hoje em níveis muito elevados, equivalentes àqueles que Kuznets havia medido em 1910. Meu trabalho destrincha estas mudanças, a partir do fato de que não há uma lei econômica inexorável que conduz nem à redução da desigualdade nem ao seu aumento. Há um século, os países europeus eram mais desiguais do que os Estados Unidos. Hoje é o oposto. Não há determinismo econômico.
 
Você enfatiza a importância da classe média. É ela que permite a aceitação do aumento na desigualdade?


O desenvolvimento desta "classe média patrimonial" é provavelmente a maior transformação ocorrida em um século. Os 50% mais pobres da população nunca possuíram patrimônio e não possuem quase nada hoje. Os 10% mais ricos que, há um século, tinham tudo, ou seja, 90% ou mais do patrimônio, possuem hoje 60%, na Europa, e 70% nos EUA. O que continua a ser um nível muito alto de concentração.
 
A diferença é que, hoje, 40% da população, que há um século eram tão pobres quanto os pobres, viram sua situação se transformar em um século: este grupo central possuía, na década de 1970, até 30% do patrimônio total. Mas isso tende a diminuir, e hoje estamos mais próximos de 25%. Enquanto os 10% mais ricos continuam a ver sua riqueza aumentar.
 
O fato de este bloco central ver sua situação piorar explicaria o aumento das tensões sociais?
 
Sim. Pode surgir um questionamento generalizado de nosso pacto social quando muitos membros da classe média patrimonial sentem estar perdendo direitos, enquanto os mais ricos conseguem obter mecanismos de solidariedade. O risco é que grupos cada vez maiores acabem optando por soluções mais egoístas, de cunho nacional, incapazes de taxar os mais ricos. Um dos reflexos mais preocupantes é esta necessidade das sociedades modernas de dar sentido às desigualdades de força irracional para tentar...
 
Legitimar...
 
... Justificar a herança ou a captação de rendas – ou o poder, simplesmente. Quando os diretores de empresas destinam a si mesmos dez milhões de euros por ano, dizem fazê-lo em nome da produtividade. Os ganhadores explicam aos perdedores que as decisões são tomadas visando ao interesse de todos. Só que é muito difícil encontrar qualquer prova de que haja algum benefício comum em remunerar os diretores com dez milhões em vez de um milhão por ano.
 
Hoje, o discurso de estigmatização dos perdedores é muito mais violento do que há um século. Ao menos antigamente ninguém tinha o mau gosto de explicar que as domésticas ou os pobres em geral eram pobres por sua própria falta de mérito ou capacidade. Eram pobres porque eram.
 
Era a ordem social.
 
Uma ordem social que se justificava pela necessidade de haver uma classe que pudesse se concentrar em algo além da sobrevivência, e se dedicar a atividades artísticas, militares etc. Não digo que esta justificativa era correta, mas exercia menos pressão psicológica sobre os perdedores.
 
Estes perdedores, essa classe média central, pode escorregar para um ensimesmamento, nos moldes do discurso da extrema direita?
 
Claro. Este é o principal risco, e a Europa deve ficar atenta para o regresso aos egoísmos nacionalistas. Quando não conseguimos resolver os problemas sociais de forma tranquila, a tentação é colocar a culpa no outro: trabalhadores imigrantes, gregos preguiçosos etc.
 
Um aspecto importante de seu trabalho é como trata o "crescimento" econômico, destacando que taxas de crescimento elevadas, da ordem de 5% ao ano, são historicamente excepcionais.
 
Nós devemos nos acostumar a um crescimento estrutural lento. Até mesmo uma taxa de 1% ou 2% ao ano implica a invenção de fontes de energia que, por enquanto, não existem.
 
Sem energia abundante, não há possibilidade de crescimento de 1% ou 2%?
 
Haverá um momento em que não será mais possível. Desde a Revolução Industrial, entre 1700 e 2015, o crescimento mundial foi de 1,6% ao ano, metade disso em função do crescimento da população (0,8%) e a outra metade (0,8%), do PIB per capita. Isto pode parecer ridiculamente baixo para quem imagina que não é possível ser feliz sem uma retomada do boom do pós-segunda guerra, quando o crescimento era de 5% ao ano. Mas o crescimento de 1,6% ao ano durante três séculos multiplicou por dez a população e o nível de vida médio porque, acumulado, é realmente um crescimento enorme. E a população mundial passou de 600 milhões, em 1700, para sete bilhões hoje.
 
Poderíamos ser mais de 70 bilhões daqui a três séculos? Não se sabe se é desejável ou possível. Já a possibilidade de o padrão de vida melhorar dez vezes é pura abstração.
 
A revolução industrial no século 19 fez a taxa de crescimento passar de próximo de 0%, nas sociedades agrárias pré-industriais, para 1% ou 2% ao ano. Isto é um salto extremamente rápido. E só em fases de reconstrução acelerada após guerras, ou de recuperação de um país em relação a outros, alcança-se uma taxa igual ou maior que 5% ao ano.
 
Os políticos, a maioria de seus colegas economistas e os jornalistas econômicos, todos ainda esperam a retomada de um crescimento de 2% ou 3% ao ano, e alguns sonham até com 6% ou 7% na China.
 
Diante da história de crescimento, afirmar que não há felicidade possível sem retomar níveis de 4% ou 5% de crescimento ao ano é simplesmente um absurdo.
 
No entanto, você usou o termo "forte crescimento" em um artigo assinado com economistas alemães e ingleses.
 
Para mim, 1% ou 2% é um crescimento alto! Em uma geração, é um crescimento muito, muito forte!
 
Em 30 anos, um crescimento de 1% ou 1,5% ao ano significa que a atividade econômica aumentará em um terço ou 50% a cada geração. É uma taxa de renovação da sociedade extremamente rápida. Para que todos possam ter um lugar em uma sociedade que se renova a este ritmo, é preciso um sistema de educação, qualificação e acesso ao mercado de trabalho extremamente bem adaptado. Nada a ver com uma sociedade pré-industrial onde, de uma geração para a outra, a sociedade se reproduz de forma quase idêntica.
 
Por outro lado, a ideia de que nenhum crescimento mais é possível também me parece perigosa. Se reproduzido ao longo de gerações, é um processo bastante assustador, é o fim da humanidade.
 
Esta capacidade de crescimento demográfico reduzida a zero ou a taxas negativas reforça a importância da riqueza acumulada. Isso nos recoloca em uma sociedade de herdeiros, o que a França conheceu de forma bem acentuada no século 19, com a estagnação da população.
 
Faz sentido continuar a falar de crescimento do PIB quando a economia tem um enorme impacto sobre o meio ambiente?
 
Melhorar a avaliação e valorização do capital natural é uma questão central. A degradação do capital natural é um risco muito maior do que qualquer outro. Esta é a verdadeira dívida. A 'dívida pública' com que nos enchem os ouvidos é uma piada! É um mero jogo de palavras em que parte da população paga impostos para pagar juros a outra parte da população. O problema real é que não estamos em dívida com Marte, mas com o planeta Terra.
 
Já tivemos dívidas públicas igualmente importantes, no passado: equivalia a 200% do PIB em 1945, e a inflação acabou com ela. Foi o que permitiu que a França e a Alemanha voltassem a investir nos anos 50-60, e financiar a infraestrutura e a educação. Se tivéssemos que pagar essa dívida com os superávits primários – como hoje pedimos que a Grécia faça – estaríamos pagando aquela dívida até hoje.
 
Portanto, a dívida pública é um falso problema, porque os patrimônios financeiros, imobiliários e as mercadorias cresceram muito mais do que a dívida pública. Este aumento de produtos no mercado é muito mais importante do que a dívida pública, que pode ser eliminada com uma canetada.
 
No entanto, um aumento de 2° C na temperatura do planeta em 50 anos não é apenas um jogo de palavras. E hoje não dispomos de nada para resolver o problema do custo imposto ao capital natural.
 
Faz sentido um PIB que não integra o capital natural?
 
O PIB nunca faz sentido. Sempre utilizo o conceito de Renda Nacional: para passar do PIB à Renda Nacional, é preciso tirar a depreciação do capital. Se um país foi destruído por uma catástrofe, e todo o país estiver empenhado em reparar o que foi destruído, você terá um PIB extraordinariamente alto, enquanto a Renda Nacional será muito baixa.
 
É preciso levar em conta o que foi destruído, contabilizar o capital natural. Contabilizar o que é criado sem deduzir o que foi destruído é estupidez.
 
Por que não há mais trabalhos sendo feitos sobre esta contabilidade do capital natural?
 
Tentamos expandir a base de dados de Capital Mundial (World capital data base) para incluir o carbono, com pesquisadores do IDDRI (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais), entre outros. Mas você tem razão: por enquanto, não é um assunto suficientemente estudado. Nossas categorias de análise permanecem profundamente marcadas pelo boom do pós-guerra e pelo ideal de crescimento infinito.
 
O capital é muito poderoso: detém enorme poder político e os meios de comunicação. Estamos em um impasse?
 
Tendências passadas sugerem que as coisas podem mudar mais rápido do que imaginamos. A história da desigualdade, da renda, da riqueza e dos impostos é cheia de surpresas. O que vai acontecer ainda é totalmente incerto, e temos vários futuros possíveis. Além disso, há diferentes maneiras de resolver estes problemas: de forma mais ou menos rápida, mais ou menos justa e mais ou menos cara.


Tradução de Clarisse Meireles


Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Thomas-Piketty-A-divida-publica-e-uma-piada-A-verdadeira-divida-e-com-o-capital-natural-/7/33684

terça-feira, 2 de junho de 2015

Belluzzo analisa a atual conjuntura brasileira e debate como o neoliberalismo se apropriou do Estado

A oligarquia financeira e midiática e o furto da democracia


Luiz Gonzaga Belluzzo analisa a atual conjuntura brasileira e debate como o neoliberalismo se apropriou do Estado

Por: Ricardo Machado

De poucas mas contundentes palavras, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é muito direto ao analisar a atual conjuntura econômica e política do Brasil. Tem um jeito calmo de falar, mas é firme nas análises. “O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo”, dispara, em entrevista por telefone à IHU On-Line. Para ele, a “exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, levantando problema para vícios como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica, a resistência daqueles que, na verdade, conseguem ter maior apropriação da riqueza e do poder”, avalia.
“O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, do despotismo daquilo que se imagina que seja a economia”, descreve Belluzzo. Na opinião do professor, a despeito da ausência de uma tradição democrática mais contundente no Brasil, há uma crise global mais ampla, “onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo”, frisa. Frente a este cenário, o pesquisador argumenta que há, para além de todas as complexidades, uma espécie de ódio de classe, cujos odiados são os pobres. “Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas", critica.
Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo - USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, atualmente, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. É autor, entre outros, de O capital e suas metamorfoses (São Paulo: Unesp, 2013), Os antecedentes da tormenta: origens da crise global (Campinas: Facamp, 2009) e de Temporalidade da Riqueza - Teoria da Dinâmica e Financeirização do Capitalismo (Campinas: Oficinas Gráficas da UNICAMP, 2000). Depois da Queda (BELLUZZO, Luiz Gonzaga e ALMEIDA, Júlio Gomes de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002).
A entrevista foi publicada no sítio do IHU, dia 21-03-2015. 
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Frente a atual crise econômica, há alternativas que derivam de uma perspectiva não alinhada ao modo capitalista dominante na atualidade?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão que exige muita investigação porque se imaginarmos que houvesse uma alternativa ao capitalismo, devemos considerar autores como Wolfgang Streeck  — ele escreveu um livro chamado Tempo Comprado – A crise adiada do capitalismo democrático (Coimbra: Actual, 2013) — ou como István Mészáros . Quando o Marx  falou na superação do capitalismo, ele se referiu a uma transfiguração interna que propõe a superação como uma possibilidade, mas não como um desfecho inevitável. Socialismo ou barbárie, ele proclamou. O que está acontecendo hoje no mundo inteiro revela que a economia capitalista está atormentada cada vez mais por contradições internas que sugerem algumas soluções de ultrapassagem, que não encontram forças sociais e políticas capazes de levar adiante um processo de transformação. 
Em sua configuração atual, o capitalismo global parece incapaz de incluir a sociedade em seu movimento. O capitalismo colocou um espartilho na sociedade e empurrou muita gente para fora do jogo. A exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica que não encontram solução diante da resistência daqueles que se apropriam das engrenagens da riqueza e do poder. Isso tudo cria um clima muito grave e não pode ser tratado de maneira abstrata. É preciso que se aglutinem as forças sociais capazes de levar adiante esta transformação. Obviamente não se vai reinventar o socialismo soviético, uma experiência histórica desastrada e cruel, não seria desejável. Então é preciso encontrar um novo caminho, chamado por Marx de democratização radical da sociedade. Não consigo vislumbrar um encadeamento de forças capazes de fazer isso. 
Vamos tomar o exemplo da política econômica brasileira, a do ajuste fiscal. O que ela revela? 
As forças que elegeram a Dilma são as mais vulneradas pelo ajuste fiscal. A tentativa de se fazer um ajuste fiscal de cima para baixo não vai funcionar porque a presidente não tomou em conta aqueles que a elegeram. É o vezo tecnocrático. 
Voltamos ao capitalismo. “Salvar o capitalismo” é uma missão que já foi atribuída a Keynes , o que é uma impropriedade, porque ele não queria salvar nada, senão conduzir a sociedade à boa vida, como mostram os biógrafos dele. Estou escrevendo um livro sobre ele chamado “Keynes além da economia”, para mostrar que ele tinha uma visão muito mais profunda e ampla da sociedade do que os economistas tentam fazer crer com o propósito de transformá-lo no idiota dos déficits orçamentários e da política fiscal.

IHU On-Line – O que se pode esperar de uma política econômica sustentada na opinião de agências internacionais de riscos que, meses antes do Lehman Brothers  quebrar, avaliaram o banco com a melhor nota AAA?
Luiz Gonzaga Belluzzo - As ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Isso se transformou em um instrumento poderoso de persuasão e não somente as agências de risco, mas também as auditorias, estão sendo avaliadas negativamente, sobretudo as que têm a obrigação de dar transparência às empresas, aos balanços, aos negócios. Ao contrário, elas contribuem para ocultar. As agências de risco são estelionatárias, não têm nenhuma legitimidade, no entanto o que se observa é que os pigmeus ou gigantes do mercado ameaçam com essa redução da nota do Brasil, com a perda do grau de investimento. Isso é uma forma de constranger os países, assim como foi feito no passado de outra maneira, como na Crise de 1930, durante o final do século XIX início do século XX, feito pelos Money Doctors , agora é feito através das agências de risco que são essas auditorias que fazem as maiores falcatruas, mas são consideradas guardiãs da transparência e da moralidade. 
O que se tem hoje é uma supremacia exercida também por intermédio dos meios de comunicação, totalmente submetidos a este tipo de perspectiva e isso acaba, por exemplo, na difusão de boatos como os de que a Dilma faria um “sequestro da poupança”. Isso é terrorismo. Não tem pé nem cabeça, é uma coisa criminosa, mas isso é feito de dentro do mercado por um sujeito que se diz funcionário de um banco e as pessoas acreditam. Então vivemos em uma sociedade de massas tecnológica que se comunica através dos whats apps da vida, difundindo uma interpretação das coisas do mundo que revela “o medo da verdade”, como dizia o filósofo Theodor Adorno, medo de um certo grupo que envolve os mercados financeiros, a grande imprensa internacional.

IHU On-Line – Trata-se de um complexo sistema biopolítico?
Luiz Gonzaga Belluzzo – É o que o Foucault  explicou em O nascimento da biopolítica (Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2008). Isso não é uma questão da supremacia do mercado, mas da forma como se governa. O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo. Um sistema, na verdade, ultradiscricionário, com o poder concentrado em poucas instâncias, com uma massa de pessoas manipulada pela opinião dominante. Em um país com as carências culturais gravíssimas como o Brasil tem, essa carência de espírito crítico afeta muito menos os desfavorecidos e muito mais os que se consideram informados e qualificados. Não vou falar cultos porque eles não sabem direito o que isso significa.

IHU On-Line – Após a reunião do Ministro Joaquim Levy com a Standard and Poors , na primeira semana de março, ele prometeu “ajustes estruturais”. De que ordem devem ser tais ajustes? Como fica o papel do Estado neste contexto?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um exemplo claro de que ele (Joaquim Levy ) teve que ajoelhar no milho para a Standard and Poors. Isso é um clássico. Eu comentei dos Money Doctors, que eram, na verdade, emissários dos banqueiros ingleses que vinham aqui ensinar os nativos como eles deviam se comportar em relação às políticas econômicas. O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, pelo despotismo daquilo que se imagina que seja a economia. Eles operam as questões como se fosse um jogo de lego e não levam em conta a resistência das pessoas e entidades sociais, o que causa o desgaste muito grande do governo, porque o Estado se apequenou e não exerce o seu papel de mediador entre as visões e os interesses divergentes, que é sua função na democracia, e acaba servindo de instrumento para as ordens das agências de risco, que são os instrumentos que o mercado usa para “colocar ordem na casa”. 
Como defende Dani Rodrik , a experiência mostra que o movimento de entrada de capitais frequentemente prejudica os países e os coloca em dificuldades. É isso que acontece sempre no Brasil, nos períodos de bonança e crescimento há a entrada de capitais que depois se transforma em uma ameaça porque a política econômica fica à mercê dos humores deles. Criam-se problemas cambiais, problemas com as taxas de juros, e não há nenhuma liberdade para se fazer a política monetária e fiscal, sem contar as facilidades de sonegar e enviar dinheiro para a Suíça. A questão do Swissleaks  tem a ver com a globalização financeira, foi isso que abriu as comportas para que a sonegação e evasão de divisas se tornasse uma prática dos ricos. 
Keynes advertiu isso em seus trabalhos preparatórios à conferência de Bretton Woods.  Dizia que era preciso ter um controle muito rigoroso dos movimentos de capitais para inibir as instabilidades e as falcatruas fiscais. Por exemplo, há a ameaça de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, coisa que será feita com muito cuidado, porque se ela subir, os ativos dos países emergentes vão sofrer e isso significa a desvalorização do câmbio, a subida da taxa de juros para conter a saída. Mas, depois do chamado Quantitative Easing, a estrutura de ativos dos bancos americanos está povoada de títulos do governo muito valorizados e a subida imprudente dos juros vai jogar os preços para baixo. Pode ocorrer um crash e a economia americana também vai sofrer. 

IHU On-Line – De que forma esta lógica coloca em causa qual é o verdadeiro poder soberano, a democracia ou a economia de mercado?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu li o Yanis-Varoufakis , o ministro grego, e quando lhe perguntam sobre o déficit democrático ele solta uma gargalhada. Ele diz: “Déficit democrático? Não se tem democracia”. A democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais. Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo.

IHU On-Line – Do que se trata, exatamente, o princípio da “Santíssima Trindade” da “teologia” dos economistas?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A “Santíssima Trindade” é o tripé macroeconômico. A economia transformou-se, como disseram Adorno  e Horkheimer  na Dialética do esclarecimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1985), no mito. A economia cria figuras como o tripé que eu comparei à Santíssima Trindade, na realidade a uma espécie de Santíssima Trindade, porque junto com o mistério há uma riqueza maior que essa banalidade do tripé. Depois de 1971, quando Friedman  advogou a taxa de câmbio flutuante nas economias centrais — ou seja, nas economias que têm moedas conversíveis — ele estava pensando nos interesses dos Estados Unidos. Aliás, o câmbio flutuante só é interessante para países que têm moeda conversível, para os demais as condições são muito menos favoráveis, porque a volatividade é desastrosa. 
As pessoas não sabem direito o que é o sistema monetário. A dificuldade de lidar com isso é muito grande. O problema é que fazem o Brasil lidar com isso como se fosse a Zona do Euro ou a China, que na verdade se precatou contra isso ao acumular 4 bilhões de dólares de reserva e impôs controles de capitais. Já os países ditos emergentes, toda vez que há qualquer incidente cambial, ficam mais vulneráveis e isso afeta as taxas de juros. É isso que eu falei, de que temos uma teologia do tripé, se é que se pode chamar isso de teologia. Eu como fui seminarista dos jesuítas penso que isso é um desrespeito com a teologia.

IHU On-Line – Uma argumentação recorrente, inclusive defendida pelo Ministro da Fazenda, é de que o país precisa cortar gastos e continuar elevando os juros. Mas como resolver esta contraditória equação se o principal gasto do Estado é, justamente, com os juros? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um ponto importante. Afinal, cortar gastos de quem, cara-pálida? Cortar gastos do seguro desemprego, de alguns incentivos que foram dados às empresas via concorrência externa de desoneração, corta-se o Fundo de Financiamento Estudantil - Fies, etc. Então se vai em cima dos mais frágeis. Esta amarração da política econômica faz com que haja uma transferência brutal de riqueza para os rentistas, que no Brasil são os bancos e os seus clientes ricos. É para eles que transferimos os recursos em dinheiro que são capturados de quem paga impostos, ou seja, dos assalariados, aqueles que compram alguma coisa e têm que pagar os impostos. É preciso ver o que está por trás disso, então se cortam os gatos dos setores mais frágeis, que têm menor resistência. Naturaliza-se isso, porque pagar juros tornou-se algo como a lei da gravidade, ninguém discute esse aspecto da estrutura tributária e da estrutura de gastos. Eles querem cortar o Bolsa Família, é o que gritam os paneleiros aí na rua, pois acham que isso não serve, não é bom, e que eles ganham dinheiro trabalhando, o que é mentira.

IHU On-Line – De que forma a dívida externa brasileira, desde sua aquisição com os militares, impacta na fragilização do setor industrial brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A dívida externa do governo é baixíssima por causa da acumulação de reservas. Hoje quem está endividado é o setor privado, com R$ 208 bilhões de dívida de empresas, onde boa parte delas não está protegida. Então se tem uma desvalorização cambial que prejudica gravemente o balanço das empresas, pela desvalorização cambial. O impacto da dívida, do câmbio e dos juros nas empresas é muito grande e isso afeta o nível de atividade, porque em um primeiro momento as empresas vão tentar se proteger, evitar novos investimentos. Isso é uma consequência, comentada há tempo por estudiosos da questão, o chamado descasamento da moeda. Fatura-se em real, mas se deve em dólares. 

IHU On-Line – A balança comercial brasileira tem demonstrado, na média, desde 2003 um pequeno superávit das exportações em relação às importações (em 2014 foi negativa), mas a principal matriz exportadora é de commodities. Como o senhor avalia esses dados? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O superávit que se tinha recentemente é o do agronegócio, da exportação de commodities e tem a ver com a subida de preços até 2010. O ciclo de commodities começou em 2003 e foi até 2009. Agora os preços estão caindo, por isso que se começou a apresentar déficit na balança comercial. O déficit da indústria é uma coisa pavorosa, já ultrapassou os R$ 100 bilhões.  

IHU On-Line - Quais os desafios para o país retomar a industrialização e deixar de ser um exportador primário?
Luiz Gonzaga Belluzzo – O Brasil teve uma reprimarização da pauta de exportação ao longo do tempo desde os anos 1990. Essa reprimarização significa que o estímulo à exportação de manufaturas do tempo dos militares foi desmontado ao longo das décadas e, ultimamente, se agravou. Fizemos isso no momento em que a China entrou no cenário competindo, principalmente, em preços. A indústria brasileira sofreu um golpe importante nesses anos todos e recentemente ela está muito enfraquecida. Uma das questões é não permitir mais a variação cambial, que é fundamental, mas não se pode restringir a isso apenas. O Brasil tem a possibilidade de desenvolver uma política industrial embutida nos investimentos do pré-sal e de infraestrutura, assim como a tentativa de criar um elo mais forte entre o desenvolvimento do agronegócio, uma atividade muito avançada tecnicamente e os setores industriais.

IHU On-Line – Tentando compreender a questão política em seu sentido mais amplo a partir da economia, de que maneira a democracia é permanentemente tensionada pelo capitalismo? Como isso se caracteriza no caso brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu brinco que a ideia do Estado Democrático de Direito não “pegou” aqui. Há vários movimentos de esforço que acabaram malsucedidos ou não foram concluídos por conta da estrutura social que se tem aqui. Recentemente houve um processo econômico de inclusão, passando por inclusão de conhecimento — foi muita gente para dentro da escola, etc. —, mas isso ainda é uma coisa muito precária. Não temos, na verdade, uma tradição de contribuir à democracia para além de sua simples dimensão econômica. Ela não se sustenta só nisso, é preciso que se tenha a formação de uma cultura democrática. Temos ainda, dentro da sociedade, uma resistência muito grande aos valores democráticos. 
A democracia europeia foi fustigada muito tempo pelo capitalismo, mas aqui no Brasil não se consegue fazer avançar, não se consegue dar passagem na sociedade democrática que inclui a transformação do cidadão, que ele seja capaz de compreender melhor sua situação. Não se trata apenas de uma ascensão do cidadão, mas de sua capacidade de compreensão, daquilo que está sendo obnubilado pela mídia, por exemplo. Esse passo é muito complicado e precisamos de uma política deliberada para se fazer isso. Precisamos de um debate amplo para que o cidadão tenha a capacidade por si mesmo de saber qual a importância de sua liberdade e de sua autonomia.
Vou contar uma história. Um amigo, dono de uma empresa, foi cumprimentar o jardineiro que estava com as mãos sujas e o jardineiro não pôde dar as mãos e ele deu um abraço no jardineiro. O empregado ficou absolutamente surpreso porque disse que nunca havia sido tratado dessa maneira. Esse episódio revela muito mais do que um abraço, isso é o Brasil.

IHU On-Line – O senhor considera que há um ódio de classe no Brasil?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é uma dimensão do que acabei de relatar. Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas, “eles não são o que nós somos”, ou seja, não conseguem reconhecer o outro, a alteridade. Eles não são nossos semelhantes, aí está a origem dessa coisa toda, o resto é tudo conversa mole — da Dilma ao ajuste fiscal. Eles (os ricos) perderam a eleição e durante o pleito vimos como se portaram não reconhecendo o outro, que mora no mesmo espaço jurídico-político deles. No Brasil essa é que é a barreira fundamental. Eu sempre digo que não houve liberalismo político aqui. Marx reconheceu que isso era uma invenção fantástica da ascensão burguesa e por isso queria a democracia radical.

IHU On-Line - Como a crise da economia reflete a crise do humanismo evidenciada em nossas sociedades? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – A crise da economia que estamos vivendo agora e os remédios que estamos tentando administrar para debelar a crise é expressão mais escancarada desta desumanização que estamos observando. É a desumanização dos diferentes. Alguém teve a ideia de fazer um “dia do orgulho hétero”, por que isso? Será que o cara não percebe? Eu tenho algumas reservas às políticas de gênero, raça, credo. Na minha opinião elas devem ser universais, dirigida a todos, independente de raça, credo, etc., mas por que alguém vai criar um “dia do orgulho hétero”? Afinal de contas, são os gays e as mulheres que são assassinados. O momento exige um status especial às mulheres para que não sejam agredidas, temos que caminhar na direção da universalidade, na tentativa de minorar as diferenças. Só que no Brasil as forças sociais que mandam no país tratam de acentuar as diferenças.

IHU On-Line – Que Brasil teremos nos próximos quatro anos?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Temos dificuldade de saber o que vai acontecer na próxima semana. A única coisa que eu posso fazer é uma aposta, uma aposta na estabilidade institucional, seria um horror se nós tivéssemos um golpe. Aposto na luta democrática pelo Estado de Direito para avançar no debate democrático como sugeriu Keynes, um economista que eu admiro. Era um aristocrata, mas queria que o homem se livrasse das garras da economia.

Fonte:http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5830&secao=461