segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O Conflito Israelo-Palestino e a simplificação Mocinho x Bandido.

O evangelicalismo de conveniência e a asnice, correram às redes para jorrar ignorância, má fé e estupidez sobre o conflito israelo-palestino, com o expediente batido de intepretação des-contextualizada do velho testamento para justificar o terrorismo praticado pelos israelenses há décadas contra o povo palestino.

Não se trata de defender nenhum dos lados nesse horror, mas um mínimo de atenção aos fatos históricos, e senso do ridículo cairia bem.

O show de desconhecimento histórico e ranço religioso começou com o famoso pastor André Valadão da Igreja Batista da Lagoinha, citado pela imprensa em vários escândalos e bolsonarista de carteirinha, referindo-se ao Livro de Josué e a forçada interpretação sob medida e descontextualizada para afirmar que a terra onde os palestinos vivem há milhares de anos, pertencem ao “povo de Deus”, seja lá o que isso quer dizer e que deus seria esse.

Na sequência, outra radical, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), conhecida prócer do evangelicalismo nacional, se disse "em lágrimas", pediu paz e declarou: "Ó, Israel, como te amo!"

Bem, para quem não é muito familiarizado com a crença evangélica, pode a princípio parecer um contrassenso esse respaldo sem limites a uma religião e a um povo que sequer crê no ponto central do cristianismo, que é aceitar Jesus Cristo como seu messias, mas sigamos.

Segundo artigo da Anna Virginia Balloussier na folha de São Paulo, “a bem da verdade, por muitos séculos, protestantes —precursores do pentecostalismo que hoje domina essa parcela cristã no Brasil— não deram muita bola para Jerusalém. A cidade disputada por palestinos e israelenses tinha mais capital simbólico para judeus, católicos e muçulmanos, como lembrou o pastor Valdinei Ferreira, líder da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.

O que mudou então? A partir do século 20, começaram a popularização das teologias que passaram a interpretar de modo convenientemente literal as profecias bíblicas que envolvem o Apocalipse e a volta de Jesus.

Fatos modernos, como a criação do Estado de Israel, em 1948, após o empenho nazista em exterminar a comunidade judaica, são lidos a partir dessa lente profética. Grupos evangélicos acreditam no retorno de Jesus à Terra para comandar o Juízo Final. E as profecias apontariam que o renascimento de Israel, ou seja, o Estado que surge após o Holocausto, seria contemporâneo a uma nova vinda do filho de Deus.

Claro que o projeto de salvação implicaria na conversão de judeus ao cristianismo, mas esses, não dão a mínima para o cristianismo, mas isso é só um detalhe.

O livro de Apocalipse fala ainda dos "144 mil selados de todas as tribos de Israel", que contemplariam os verdadeiros adoradores de Deus, com vaga garantida no céu. "Mas cremos que judeus podem ser salvos o tempo todo", diz o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Renascer em Cristo, igreja que adota artefatos judaicos como a mezuzá. Bastaria ceder neste caso, ao que cristãos entendem como verdadeiro Senhor.

A ênfase no simbolismo judaico não se restringe à Renascer. A Igreja Universal do Reino de Deus chegou a erguer sua própria réplica do Templo de Salomão, do filho de Davi, o maior rei de Israel, com Bate-Seba, conforme a narrativa bíblica. A inauguração, em 2014, contou com o bispo Edir Macedo em trajes típicos do rabinato: quipá, talit (o xale de orações) e uma farta barba branca, tal qual um profeta.

No mesmo ano, em entrevista à Federação Israelita do Rio de Janeiro, o pastor Silas Malafaia deu seu pitaco: "Para nós, o Deus de Israel é o nosso Deus. Não tem nenhuma absolutíssima diferença".

Nos últimos anos, a defesa evangélica a Israel ganhou contornos políticos mais salientes, com pressões para a mudança da embaixada dos países de Tel Aviv para Jerusalém. Em 2017, o então presidente dos EUA, Donald Trump, assim determinou, e o embaixador americano até hoje fica em Jerusalém, assim como o de um punhado de nações de menor expressão, como Guatemala e Honduras. Bolsonaro bem que tentou seguir os passos de Trump, mas o plano não foi adiante no Brasil.

Tamanho é o apelo de Israel entre evangélicos que pululam agências de viagem com pacotes específicos para esse turista cristão, da Caravana Selados com Espírito de Deus ao Cruzeiro Gospel.”

Outro artigo interessante sobre o tema é o do Prof. Da UNB Luis Felipe Miguel onde explica:

“É difícil simpatizar com o Hamas – um movimento de caráter fundamentalista, que afirma que “o Corão é a nossa constituição”.

E o terrorismo, fazendo vítimas civis indiscriminadamente, é sempre repugnante. O sofrimento que causa não pode ser ignorado.

Mas não é possível não tomar lado a favor dos palestinos, vítimas há décadas da agressão israelense.

Israel é um Estado terrorista. O que pratica contra o povo palestino tem nome: genocídio.

A fundação do Estado de Israel, em 1948, passou pela expulsão de 750 mil palestinos de suas terras – nas palavras do historiador Ilan Pappé, um israelense crítico de seu país, um processo de “limpeza étnica”, para retirar os indesejados de seus territórios.

Desde então, a história é de anexação de territórios e muita violência. A Faixa de Gaza é um grande campo de concentração – Israel mantém um severo bloqueio contra o território, impedindo o trânsito de pessoas e de produtos. Faltam suprimentos, falta energia elétrica, falta água. Ataques “preventivos” ou “retaliativos” contra civis são frequentes.

É fácil condenar a violência do Hamas. As imagens são mesmo chocantes.

Mas a causa é a violência do opressor – isto é, de Israel.

Os palestinos lutam desesperadamente para romper a pasmaceira da comunidade internacional e chamar a atenção sobre sua situação. (E talvez não custe lembrar que o Hamas era um grupo irrelevante até que Israel decidiu financiá-lo, com o objetivo de enfraquecer a esquerda laica e criar discórdia entre os palestinos.)

Quando a indignação é seletiva, como na imprensa que recrimina o terrorismo do Hamas mas não é capaz de definir o Estado de Israel com os adjetivos certos (terrorista, racista, genocida), parece que aos palestinos não cabe outra alternativa que aceitar passivamente tudo o que sofrem.

Na primeira metade do século passado, a condenação ao nazismo e a solidariedade com suas vítimas formavam um imperativo moral absoluto, com o qual não era possível tergiversar.

Hoje, o repúdio ao expansionismo de Israel e a defesa da liberdade, da dignidade e da autonomia da Palestina traçam uma linha divisória que separa quem de fato defende os direitos humanos de quem transaciona com eles.

Que a ofensiva palestina iniciada anteontem sacuda a consciência do mundo e contribua para frear a truculência israelense – único caminho possível para a construção da paz.”

Apesar do esforço da mídia ocidental “cristã” padecer do viés pró- Israel, tornou-se impossível, esconder que o terrorismo de estado praticado contra o povo palestino e que transformou a faixa de Gaza, no maior campo de concentração a céu aberto do mundo.

Nos últimos anos, Israel bombardeou instalações de tratamento de água, centrais elétricas, hospitais e escolas de Gaza, fechou as suas fronteiras e portos, proibiu a operação de um aeroporto e destruiu pelo menos um terço das terras agrícolas dos  palestinos desde 2000, quando autorizou assentamentos israelenses ilegais em territórios Palestinos.

O ataque terrorista do Hamás é apenas uma centelha de reação ao terrorismo israelense, que é legitimado e escamoteado por muitos interesses diversificados, e que  parecem aceitáveis-edulcorados pela afinidade cultural. Afinal de contas, a civilização israelense é "coisa nossa", moderna, pop, contemporânea, limpinha e cheirosa e oposta à barbárie árabe-muçulmana medieval e cozida na religiosidade opressora, dos direitos individuais, das mulheres etc, etc.

Fato é que enquanto não houver negociação e instituição de dois estados com reconhecimento internacional, o morticínio de lado a lado nunca terá fim.