sexta-feira, 3 de abril de 2020

Divagações em tempos de covid 19



Nesses dias de Covid-19 tem sido inevitável pensar na morte e no que se fez da vida... e aqui na solidão desse apartamento não avarandado onde só enxergo paredes, fiquei pensando em tudo que armazeno aqui e que para além de serem meus bens posicionais, são as coisas que juntei pela vida a fora... e fiquei pensando se eu morresse hoje o que seria disso tudo e será que alguém iria aproveitar “meus tesouros...”?

Será que alguém iria ver o que tem nos meus Hd´s ou simplesmente formatariam para dar novo uso? E aquele resfriador de nitrogênio para processadores ultrarápidos? Alguém saberia do que se trata ou colocaria no lixo como sucata? E os discos, livros que são parte de mim, fotografias que são fiapos de vida que me conectam com diversas significações, assim como meus filmes eróticos, anotações, revistas, cartas (sim sou desse tempo), escritos variados e por aí vai!? Que fim teriam?  O que é a vida e o que realmente vale?  E a aquela minha caixa que tem todos os tipos de cabos e conexões, conversores, placas, adaptadores, ferramentas, memórias, coolers, multímetros, fontes e tudo que é coisa que eu talvez possa precisar numa madrugada insone caso alguma coisa quebre ou colapse? E o que seria da minha incrível caixa de remédios salvadora que o Miró uma vez apelidou de caixa mágica? Redes sociais sem senhas, contas bancárias, roupas, chocolates e  outras guloseimas escondidas de mim mesmo, planos para o futuro, pensamentos obscuros, coisa por fazer, garrafas por terminar como aquele Hennessy escondido na gavetas de cuecas!? E aquele plano de ir numa casa de swing sempre adiado? Só agora notei como a morte  é desrespeitosa!  Não tem um pingo de consideração...!? ...e nem fiz a transiberiana ainda, pô!

Olhei para para o lado e a Tv não para de falar dos até então invisíveis 30 milhões de pessoas esquecidas em habitações precárias sem agua e esgoto que juntamente com as centenas e milhares de pessoas que vivem nas ruas.. e que agora poderão contaminar e matar os bem-nascidos ou quem sabe até ocupar leitos hospitalares salvadores que poderiam ser destinados a gente de bem(?). Pensei na ironia e na tal lei do retorno ao ouvir isso. Subitamente descobrimos agora que eles existem e passaram a ser objeto de preocupação geral, quem diria!? 
Nessas paranoias e divagações senti uns calafrios de imaginar que caso aconteça algo comigo e resolvam me enterrar Brrrr...!  Tenho pavor disso (tenho falta de ar). Preferiria ser cremado e poderiam distribuir minhas cinzas em quatro lugares: 1- Edifício Copan, 2- o número 102 da Rua Sergipe em Higienópolis, 3-numa praia do litoral norte que pode ser Bonete, praia do alto, Mococa, Felix, e 4- no pé de jatobá a poucos metros da casa onde nasci e cresci e por favor não permitam que nenhum familiar ou amigo pietista promova arenga religiosa e nem choradeira pois tenho vivido uma vida boa -depois que me afastei de religião-, até aqui. Prefiro celebração, música boa, alegria, fotos, boas lembranças, muita caipirinha e torresmo.  

Deitado olhando para o teto  no modo retrospectiva  eu não acho que mudei muito ao longo da vida...  fui apenas sublinhando e negritando o meu sentido de existência sem nunca dar nenhum cavalo de pau e virar outra pessoa como um amigo mais velho da adolescência que me mostrou Pink Floyd, Gênesis, etc e me deu um livro do psicanalista Erick From e outro do Sartre e que foram a centelha para eu me descobrir, quando eu ainda tinha uns 15 anos e sem saber quem eu era direito...  Bom, esse cabra eu reencontrei uns 20 anos depois acidentalmente e a primeira frase que ele falou não foi olá como tem passado, nem algo do tipo sabe, ele simplesmente como todo fundamentalista descerebrado atirou a queima roupa; “Como está sua vida com Deus?” e eu fiquei paralisado sem saber se era uma piada, mas logo percebi que não. O cara tinha virado um intrépido religioso e bolsomínion para minha estupefação. Sem assunto, indaguei sobre sua antiga discoteca com Lp´s progressivos dos anos 70 e ele mudou de assunto e depois eu soube que ele havia quebrado todos numa época que se acreditava que tocados de trás pra frente, os discos de rock conteriam mensagens satânicas segundo a crença patética, com perdão do pleonasmo.

Como é de conhecimento geral Tenho verdadeiro horror à religião (inclusive as que disfarçam/negam que são religiões), a partir da minha vivência e do que ainda hoje vejo ao meu redor a todo instante, mas não faço mais disso um cavalo de batalha, nem perdi minha espiritualidade no sentido de acreditar em uma possibilidade de transcendência, mas sem aderir a nenhum credo disponível nas prateleiras dos hipermercados da fé. É mais uma espécie de reverência aos mistérios insondáveis da vida e seus porquês. Diferentemente do que preconiza o Dawkins e de certa forma também o Christopher Hitchens, modestamente reconheço que há mistérios. 

Até vejo poesia e coisas pontuais interessantes e bacana nos livros religiosos como a Bíblia que é como outro livro qualquer que fica na prateleira de livros, e claro como todo ocidental me simpatizo mais com ela do que com os escritos corânicos, budistas, hinduistas etc.  Tenho muita simpatia pela parte do Jesus histórico, mas verdadeira ojeriza de seus explicadores calvinistas e quejandos. Já aquela parte abraâmica eu não curto muito não. Há também outros quase seis mil mitos de criação mais  -digamos-, divertidos por aí e assim não vejo porque esse monoteismo todo muito chato e exclusivista e que malucos por toda lugar teimam em levar a sério.

Falando nisso, o que tenho visto de conhecidos/amigos cristãos migrando para o Budismo ultimamente é uma enormidade e eu brinco com eles que só trocaram de droga, mas o vício permanece...  Aliás no budismo parecem que ficaram ainda muito mais cegos e fanáticos...  Não entendo!  Converso muito com eles e me parece uma coisa assim bem amalucada e ainda estou por entender o motivo dessa reconversão e suspeito que o budismo por não trabalhar com a "culpa" ele entrega mais por menos. um melhor  custo/benefício talvez. Ainda vejo o taoísmo com mais interesse para assuntos de boteco.

Toda religião claro, é nociva ao desenvolvimento humano sem dúvida, mas mais chato que religião só mesmo seus seguidores com destaque para  os religiosos cristãos e seus argumentos malabares que podem ir de  Karl Barth até Malafaia rs,rs,rs... dependendo da necessidade que é o que define o sofisticação do verniz a ser aplicado sob a pintura.  Dia desses por exemplo, me chegou um texto tão rebuscado e tão erudito para me reconvencer da fé cristã, que logo ví que me superestimaram, afinal não sou um conhecedor profundo do pensamento de Kant, Kierkegaard, Wittgenstein, Paul Tillich etc, e sem isso ficaria muito difícil a compreensão e alcance da mensagem, dadas as idiossincrasias envolvidas para aceitação da proposta redentora que culminaria com a assumpção de uma tonelada de culpa e claro, o pagamento em energia, medo do inferno e também o dízimo, porque ninguém é de ferro.  Neste ponto aliás, o bispo Edir Macedo e seus rivais tem sido bem mais bem-sucedidos porque não gastam tempo com firulas, mas essa já é outra conversa que ficaria melhor e mais produtiva com a presença de Bertrand Russell e algumas  camisas de força, quem sabe!?

Atribuo sem dúvida alguma à religião todas as desgraças da humanidade ao longo da história e que continua ainda hoje. Não me animo de jeito nenhum com aquela conversinha conciliadora (para boi dormir), de sumidades como Marcelo Gleiser passando pano para a religião, dizendo que houveram contribuições... variadas como monges que manipularam ervilhas e deram origem a genética ou porque a religião nos deu Michelangelo bla, bla, bla...!  No final das contas, se com religião e seus horrores a humanidade conseguiu tantos avanços, imagine sem ela?  Provavelmente já teríamos colonizado encéladus e vencido a morte ou pelo menos adiado em muito.

Tento aproveitar a dádiva da vida como posso e se possível avançar um tiquinho e superar limitações com a ajuda da psicanálise, a arte e sobretudo à ciência a quem aliás credito todos os avanços da humanidade desde que descemos das arvores no pleistoceno há três milhões de anos.

Assim pensando me veio aqui dos meus botões um pensamento que pode advir disso tudo, um certo pânico que sempre tenho de voltar à cidade natal (Jataí), cidade onde nasci e vivi até os 17 e remexer nas gavetas da memória e encontrar com meus demônios adormecidos que sempre acordam enfurecidos e também de falar com pessoas do passado ou gente que aparece como fantasmas pretéritos com aquela prosa ruim, pegajosa típicas de figuras tenebrosas e inquisitoriais que paralisaram no tempo, mas ironicamente  são também susceptíveis ao novo corona vírus, embora se julguem protegidas e cujas mortes sempre ganham manchetes por paradoxais.

Nestes dias é quase impossível não lembrar do filme  "O sacrifício" de Tarkovsky com aquele clima apreensivo de merda, espera, medo, fatalismo, impotência e raiva sobretudo.

Bem, acho que está na hora de dar uma atenção para o zé, que não para de miar, abrir um vinho e ler alguma coisa leve como "Variações sobre a vida e a morte"  (Rubem Alves) para acalmar o espírito, ao som de Layle Mays, Toninho Horta... e esperar que essa peste não me leve e nem leve ninguém querido ou distante o que parece difícil, dada às circunstâncias locais Boçalnáricas e mundiais que nos legaram essa praga anunciada e prevista pelos microbiologistas que nunca foram ouvidos pelo Capital.





domingo, 29 de março de 2020

O NOVO SEMPRE VEM !?


Liguei o PC hoje e tudo no mundo parece ser sobre um cantor de nome Gustavo Lima que não sei quem é, e isso me fez pensar que estou “por fora” de tudo que acontece no mundo mainstream da música... e lembrei do meu sobrinho que quase morreu de rir quando contei a ele sobre as “10 mais” dos anos 80 que tinham Milton Nascimento, Caetano, Led Zeppelin, Gil, Queen... e como era difícil conseguir os álbuns logo que saiam...

Por outro lado, um dia desses um amigo entendido dos parangolés musicais me recomendou fortemente observar um projeto-música ou estilo musical: Infinite Bisous - Tema Sex dream marine ***, e demorei a encontrar tempo para ouvir.

Depois de escutar um pouco concluí que não é ruim, mas como na maioria das vezes em se tratando de “novidades”, musicais não foi algo que me comoveu, pois lá como cá, já não tem aparecido muita coisa realmente empolgante para meus ouvidos que estão exigentes ou estou inevitavelmente ficando velho.

Acho que última novidade por assim dizer, que me comoveu foi o “Daft Punk” em 2013 por aí...

Essa coisa de garimpar ou ficar de bar em bar procurando musica boa, cansou. Claro que existe muita coisa bacana rolando por aí em algum lugar recôndito, mas não tenho mais ânimo para o garimpo. Sei lá tá difícil! Só quero escutar alguma coisa que emocione.

Tenho escutado umas coisas "novas" e gostado... até, tipo Oxente Groove, Silibina, Fatoumat, Coletivo Missa, Bixiga 70, kubata, Muntchako, Dharma Samu, Ricardo Primata, Cirilo Amem, applegate, Zoi de Gato, Francisco el Hombre, Anders Helmerson trio, Lianne La Havas e outros, mas não chega a ponto de dar vontade de voltar pra casa logo e ouvir “aquele álbum” como aconteceu por exemplo com “The show of Hands” do Rush, “Terra dos Pássaros” do Toninho Horta, “The dark side of the moon” de Pink Floyd, Clube da esquina, “Ride the Lightning – Metallica” entre outros tantos, na época dos lançamentos.

Não sei se foi o tempo que passou ou se é como o lendário produtor André Midani disse: “Musicalmente somos todos datados fatalmente”, mas ando com a sensação que quase tudo que aparece me soa como uma espécie de “versão” (sofisticada ou vagabunda) de algo que alguém já fez antes e melhor, o que tem me levado a ouvir cada vez mais direto da fonte ou seja, “música velha.” 

Em se tratando de MPB por exemplo o que se vê agora são quase sempre uma espécie de “metamorfoseamento” do que já existia, com maneirismos e/ou toques pessoais, para não dizer imitações/clonagens mesmo.

Penso se essas novidades existiriam para preencher à nossa necessidade atávica de não parecer antigo ou se de fato são vanguarda, pois ao ouvir a coisa passada embalada como novidade, atenderíamos a um impositivo atual de não envelhecer, ao mesmo tempo que nosso ouvido não distanciaria muito da coisa antiga, ou se são de fato criações fantásticas e fui eu que perdi a sensibilidade auditiva ou a capacidade de identificar as novidades... vai saber.

Bem, Isso tudo me faz lembrar meu pai que sempre dizia que depois de Orlando Silva, Sinatra e Elizete Cardoso etc.., nada de interessante aconteceu (risos!) e que aqueles Beatles e a Jovem Guarda (que minha mãe gostava e eu também) eram muito ruinzinhos, o Raul Seixas, esquisito e  Roberto Carlos um Zé Mané que nem sabia cantar. 

É bom lembrar também que paradoxalmente o célebre autor de “Como nossos pais” já dizia que o “novo sempre vem! ” E ele já foi.

O Frejat recentemente tentou explicar esse desalento, dizendo que o que aconteceu, foi que a música desde os anos vinte primava pela melodia e do final dos anos 1990 para cá, o ritmo tomou o seu lugar e a gente (acostumado com a melodia) ficou um pouco órfão... se bem que a música que chamam de sertaneja está aí firme e forte na melodia, mas acho que ele não se referia a essas baladas sobre chifres e bebidas.

O fato é que ando sempre com a sensação de que quase tudo que aparece agora me soa como imitação anêmica de alguma coisa boa que já conheço ou um “Blend” sem alma com vestimenta nova para se vender como novidade e assim tenho me refugiado na música instrumental ou velha mesmo.

Exceções!? Humm..., raramente como o projeto do Leo Gandelman com os feras do Rap brasileiro que está tocando agora enquanto escrevo essas mal traçadas:  ♪...e êta que mundo bom de acabar♪♫

Obs: O Andre Midani provavelmente estava certo porque fui pesquisar o tal Gustavo Lima e achei um lixo.