terça-feira, 29 de junho de 2010

A "polícia secreta" na internet

Da Folha de São Paulo

Especialista vê "polícia secreta" na internet


ANDREA MURTA - DE WASHINGTON

Enquanto os membros do Facebook discutem as minúcias dos controles de privacidade de seus perfis, provedores de serviços on-line seguem silenciosamente construindo dossiês sobre as ações de seus usuários. Para Eben Moglen, professor de Direito na Universidade Columbia (Nova York) e diretor do Centro Legal para Software Livre, a tendência construiu uma "polícia secreta do século 21", que "tem mais dados do que agências de espionagem de regimes totalitários do passado". Moglen diz que é possível até prever quem terá um caso com quem só com base em dados do Facebook.

Folha - Somos nós que estamos nos expondo demais?
Eben Moglen
- Não creio. É perfeitamente razoável pensar que o capitalismo do século 21 se baseie na descoberta de uma nova matéria-prima -a informação sobre nossas vidas privadas.
O objetivo de sites como o Google é a reorganização da publicidade para favorecer o consumo em estilo americano. Se você sabe o que as pessoas buscam, pode definir sua publicidade por isso.
E ferramentas como redes sociais sabem tudo sobre o consumidor.

Folha -As redes sociais espionam deliberadamente?
Eben Moglen -Sim, esse é seu negócio. A forma que encontraram de ganhar acesso à vida privada é oferecer páginas gratuitas e alguns aplicativos.
É uma péssima troca para o usuário -degenera a integridade da pessoa humana. É como viver num regime totalitário.

Folha -O Facebook diz que as pessoas querem compartilhar suas vidas e eles só facilitam.
Eben Moglen-Sim, é um ótimo argumento. É por isso que a "polícia secreta do século 21" não tortura nem executa, e sim oferece "doces". Nos ensinam a gostar disso.
Quando eu digo que o Facebook é capaz de prever com quem você terá um caso, não é modo de falar.
Em termos técnicos, o Facebook é simplesmente um grande banco de dados. Se dissermos a esse banco de dados: "me dê o log [dado arquivado] de todas as pessoas que checaram algum outro perfil mais de cem vezes hoje", teremos uma lista de pessoas obcecadas.
Mas o site está longe de ser o único -há milhares de bancos de dados na internet.

Folha -Mas o Facebook é abertamente sobre exposição...
Eben Moglen-Toda a internet é sobre exposição. A diferença entre o que você pensa que está publicando e o que está de fato tornando público é na prática muito grande.
Praticamente todos os movimentos na rede estão arquivados em algum servidor externo, fora do controle do usuário.

3 comentários:

Judith disse...

Ri, sentimentos ambivalentes. Tem horas que dá vontade sumir com tudo na internet o que, sabemos, é impossível agora. Do outro é uma forma que manter-se com alguma conexão num mundo cada vez mais diluído. A vontade de pertencer, de alguma forma, é maior do que a vontade de não existir na rede. Mas entrevistas como esta levantam uma bela lebre. Aff.

Ricardo Reis disse...

Vc foi direto ao ponto: a inescapável vontade de pertencer. Segundo o Roberto da Matta, esta é a mais atávica das sensações...
Acho que é por aí que nos pegam mesmo.

Indra disse...

Eu diria que a inescapável vontade de pertencer também se dá no mundo dito real. Eu, na verdade, me sinto mais segura com amigos feitos na internet, onde JÁ sei de antemão quem é, que lê, onde já foi e não perco muito tempo nos VAMOS NOS CONHECER REAL. Estou me referindo aos amigos recentes. Que eu saiba, não tenho muitos amigos reais...ummm....