sábado, 24 de abril de 2021

Porque a Rússia gerou tantos escritores fundamentais no século 19 !?

Folha de São Paulo

Entenda por que a Rússia gerou tantos escritores fundamentais no século 19

'Como Ler os Russos' destila a cultura que produziu autores como Tolstói, Dostoiévski, Tchékhov e Púchkin

Por Walter Porto

SÃO PAULO

No ensaio “Tolstói ou Dostoiévski”, o crítico francês George Steiner comenta o que chama de “anni mirabilis da ficção russa”. Foram anos de um “suprimento de genialidade” que pode ser comparado “aos períodos dourados de criatividade na Atenas de Péricles e na Inglaterra elisabetana”. “Estão entre os melhores momentos do espírito humano.”

Qualquer pessoa com algum conhecimento de literatura entende mais ou menos do que ele está falando. O século que começou com Púchkin e terminou com Tchékhov, para usar a construção de Irineu Franco Perpetuo, concentrou ainda autores como Gógol e Turguêniev, além dos pais de “Anna Kariênina” e dos “Irmãos Karamázov”.

Perpetuo, que está publicando o guia “Como Ler os Russos”, tem algumas hipóteses para o que provocou um clarão literário tão esplendoroso.

Primeiro, a guinada ocidentalizante tardia da Rússia, que torna os pais fundadores de sua literatura mais próximos de nós, em termos sociais e temporais, que outros oráculos como Shakespeare e Cervantes. “Parece que a literatura russa chega atrasada e resolve tirar o atraso muito rápido, queimando etapas e ditando normas.”

A aproximação da Rússia com a cultura europeia veio com Pedro, o Grande, na virada para o século 18, e se aprofundou no reinado de Catarina, logo depois. Como descreve o crítico, o país engole com voracidade a cultura francesa e regurgita depois uma literatura “que não tem nada a ver com a francesa, numa síntese única”.

O que ocorre então, no sentido contrário, é que a literatura russa passa a ser fonte de inspiração para a Europa, nos fins do século 19. O nível de contágio entre a intelectualidade europeia e a brasileira, nessa época, é algo que começa a explicar a entrada dos russos por aqui, uma invasão que Perpetuo aponta

O crítico e tradutor abre esta obra que chega às livrarias agora afirmando que “se é possível escrever no Brasil um livro chamado ‘Como Ler os Russos’, é porque a questão ‘por que ler os russos?’ parece respondida de antemão”.

Afinal, a literatura de lá se faz tão presente entre nós, e há tanto tempo, que “não chegamos a ponderar no que há de espantoso em sua inserção numa sociedade em que a parcela de imigrantes russos é tão escassa”.

Durante a entrevista, Perpetuo ensaia algumas explicações sobre aspectos que aproximam os dois países, como as proporções continentais e a geopolítica periférica, mas sempre acaba retornando para a força extraordinária da expressão daqueles autores.

O que leva a um outro fator de distinção. “A literatura na Rússia sempre foi mais que literatura. O escritor era visto como uma espécie de profeta.” Ou, voltando a citar George Steiner, “Tolstói e Dostoiévski não são apenas lidos, eles são acreditados”.

Na Rússia não havia nem resquício de um sistema democrático, lembra o crítico brasileiro, o que transformou a expressão literária num dos meios fundamentais de circular ideias políticas —já que não havia púlpitos de partidos durante todo o século 19, sob os desmandos dos czares.

Por isso também o conflito com a censura e a perseguição sempre foi intrínseco à cena intelectual russa —são inúmeras as histórias de escritores exilados, encarcerados, fuzilados. Como disse o crítico Vladislav Khodassévitch, que se radicou em Berlim, “em nenhum lugar fora da Rússia as pessoas foram tão longe, por quaisquer meios possíveis, para destruir seus escritores”.

Ou, nas palavras famosas do poeta Óssip Mandelstam, morto pelo regime stalinista —"em nenhum lugar do mundo se dá tanta importância à poesia: é somente em nosso país que se fuzila por causa de um verso”.

“Como Ler os Russos” avança durante todo o período soviético, passando pelo degelo que revelou o “Arquipélago Gulag” de Aleksandr Soljenítsyn, se estica até autores desterrados como Vladimir Nabókov e Joseph Brodsky e chega até os contemporâneos, forjando um panorama robusto dos nomes e correntes artísticas indispensáveis ao leitor.

Ao longo do livro, as citações tiradas das dezenas de obras literárias analisadas são raríssimas, mas Perpetuo mobiliza longos trechos da melhor fortuna crítica que se produziu sobre a Rússia.

O mais frequente é Boris Schnaiderman, um dos principais fios condutores da entrada da língua russa no Brasil. “Fiz questão de trazer o pensamento crítico brasileiro”, afirma Perpetuo. “É um livro de um brasileiro para brasileiros, levando em conta o contexto do país.”

Contexto, aliás, mais pujante do que nunca, com diversas editoras se animando em escavar clássicos da terra de Putin. Já faz duas décadas, diz o autor, que a tradução direta do russo se tornou regra por aqui, onde antes vicejavam traduções mediadas pelo francês.

Assinalando o marco inicial no “Crime e Castigo” que Paulo Bezerra transpôs em 2001 para a editora 34, ele diz que hoje recebe propostas até para traduções diretas de livros científicos.

Vale comentar que Perpetuo traz o olhar externo do estudioso, mas também o interno do tradutor experimentado. Suas versões do clássico “Anna Kariênina” e do contemporâneo “Meninas”, de Liudmila Ulítskaia, chegam no mês que vem pela 34, que já tem na gaveta também sua tradução inédita de “Guerra e Paz”.

A crítica chama de “febre de eslavismo” a reação entusiasmada dos leitores brasileiros ao intenso desembarque de obras russas no país, nos anos 1930. Ela nunca deu sinais de arrefecer. E, tendo contaminado gente como Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues, é seguro dizer que já está devidamente incorporada aos nossos genes

 



domingo, 28 de março de 2021

Morticínio da pandemia é reflexo de guerra contra o Brasil.

Por Cesar Calejon

 

Em basicamente todas as nações ocidentais, uma pequena parte da população mantém seus privilégios políticos e econômicos e organiza os arranjos sociais com base em narrativas historicamente desenhadas para favorecê-la. Racismo estrutural, racismo cultural, racismo científico, viralatismo, misoginia, homofobia, transfobia, machismo, chauvinismo, dentre outros, são exemplos de termos que descrevem essas narrativas.

 

Nos últimos quinhentos anos, essas narrativas foram orquestradas para determinar que (primeiro os nativos do norte, depois) os povos do Hemisfério Sul eram desprovidos de racionalidade e inferiores moral e eticamente, o que significava que, para o seu próprio desenvolvimento, eles deveriam ser colonizados pelos europeus. Deveriam "encontrar o norte". Não é por acaso que o mapa mundi está organizado como você o conhece

 

No meu primeiro livro, "A Ascensão do bolsonarismo no Brasil do Século XXI", eu utilizo o termo "elitismo histórico" para sumarizar todos esses conceitos e narrativas. Ou seja, conforme a minha interpretação, o elitismo histórico é uma força social historicamente constituída, presente na organização das sociedades humanas desde a Revolução Neolítica e que atua de forma a estruturar os arranjos sociais com base em um parâmetro elitista, que se manifesta de múltiplas maneiras de acordo com a época e a cultura em questão.

 

Assim, qualquer filosofia que se organize com base em parâmetros elitistas e excludentes, de forma a criar uma "hierarquia moral" e uma "gramática da desigualdade", pode ser enquadrada nessa categoria.

 

Em entrevista à coluna, o sociólogo Jessé Souza, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e autor dos livros "A Elite do Atraso" e "A classe média no espelho", dentre outros, explica que essas narrativas foram absolutamente fundamentais à ascensão do bolsonarismo no Brasil. Ele afirma que existe uma "elite do atraso" que vem se perpetuando de forma a escravizar o país e que, a partir de 2013, uniu-se aos Estados Unidos e "a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro.

 

"Eu não me refiro aqui ao povo estadunidense", pondera Jessé, "mas às elites que comandam os rumos dos processos políticos e econômicos daquela nação", salienta.

 

A guerra contra o Brasil é complexa e híbrida, no sentido de abranger o lawfare, estados de exceção, ativismos judiciais, dispositivos econômicos de coerção (embargos, restrições etc.), entre diversos outros instrumentos que sofisticaram a forma como as guerras tradicionais se desenrolavam nos séculos passados e os métodos que os impérios utilizavam para assegurar as suas respectivas hegemonias.

 

Conforme demonstrado nessa coluna em setembro de 2019, o elitismo histórico é o elemento central para refletirmos sobre por que a população brasileira, que alegadamente lutava contra a corrupção e se indignou com os diálogos entre Dilma e Lula, não se revoltou quando confrontada com provas cabais apresentadas pela Vaza Jato ou, mais recentemente, no caso das rachadinhas, documentado pelo UOL.

 

"Hoje, é fundamental cooptar as elites e a classe média de cada nação para fazer a manutenção do tipo de hegemonia moderna que vigora no Brasil", explica Jessé. Mas quem são as pessoas que formam a "elite" (política e econômica) e a "classe média" brasileira e por que essas parcelas da população são tão importantes para constituir o paradigma vigente no ideário coletivo.

 

A "elite" brasileira abrange um grupo restrito que varia entre 150 e 200 mil pessoas (que faturam algo em torno de R$ 188.925 e R$ 5 milhões) por mês e alguns pouquíssimos bilionários, segundo dados do Inequality World Report 2018. Em sua grande maioria, são cidadãos brancos, com ascendência europeia, que começaram suas carreiras profissionais após a conclusão do ensino superior e residentes nos metros quadrados mais caros do país. Apesar de ser extremamente forte nas searas econômica e política, esse grupo depende, diretamente, da "classe média" que vem abaixo para avançar as suas narrativas

Nessa altura da pirâmide social (e da hierarquia moral, conforme mencionado), a "classe média brasileira", aqui entre aspas porque, de fato, o Brasil jamais consolidou uma classe média de forma mais ampla, compreende um grupo de cerca de 15 milhões de pessoas com rendas entre R$ 7.425 e R$ 36.762 mensais. Assim, caso você ganhe menos do que R$ 15 mil por mês, a sua posição aponta para a "classe média baixa", mas, certamente, a sua profissão e cosmovisão do mundo interessa imensamente às camadas de cima

Essa é a importância da "classe média" brasileira considerando a guerra contra o Brasil à qual se refere Jessé Souza: além de operacionalizar (seguindo as determinações da elite) toda a infraestrutura jurídica e de comunicação social da nação, essa parcela serve de exemplo para os milhões de brasileiros que vivem lutando contra a miséria e almejam ingressar na "classe média", introjetando, consequentemente, as suas tramas simbólicas de ideias e valores

O colapso social e o caos absoluto que o Brasil vivencia atualmente são tanto resultado da covid-19 quanto dessas narrativas sociais, culturais e históricas que vêm sendo avançadas ao longo dos últimos cinco séculos e que foram ainda mais agudizadas pela ascensão do bolsonarismo.

"Os Estados Unidos desenvolveram uma espécie de imperialismo informal, com o qual não é necessário invadir determinado país e ocupá-lo com forças militares, que foi (o método) clássico do colonialismo do século XIX, apesar de que Portugal, França e Espanha já cooptavam as elites dos locais que pretendiam dominar. Esse fator é extremamente importante para que essa classe atue contra o seu próprio povo. (...) Para a visão imperialista estadunidense, o Sul global não pode se desenvolver. Isso está entendido", conclui o sociólogo.

Na prática, isso significa que os países centrais do nosso atual arranjo geopolítico global (G7) e as grandes corporações (bancos e gigantes industriais transnacionais de várias verticais) utilizam essas novas formas de guerra para controlarem as moedas, o mercado e o fluxo de capital, as indústrias de alta tecnologia, a energia atômica, os principais veículos de imprensa (e o ideário popular), os assentos no Conselho de Segurança das Nações Unidas etc. Ou seja, para literalmente mandar no mundo, enquanto países como o Brasil, por exemplo, que têm um imenso arcabouço de recursos para desenvolver as suas potencialidades, ficam relegados a fornecer matéria-prima e produtos primários, o que gera um ciclo de dependência, miséria e submissão.

Fundamentalmente, esse controle é estabelecido por deliberação do povo dominado. Esse é o aspecto mais triste da guerra contra o Brasil: boa parte do nosso povo se entende submisso, avança essas narrativas internamente e pede para ser subjugado. Em inúmeras ocasiões, Bolsonaro reforçou esses parâmetros, verbalmente e sem qualquer pudor.

Há exatamente um ano, o presidente brasileiro disse: "Eu acho que não vai chegar a esse ponto (a situação brasileira em comparação a dos Estados Unidos considerando o número de mortes decorrentes da pandemia). Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada (pela covid-19) no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajuda (sic) a não proliferar isso daí", afirmou.... -

Portanto, além de combater o vírus que provoca a covid-19, é preciso atacar o patógeno que celebra a ignorância e os elitismos históricos como formas de virtude organizacional, porque, ancorados nessas premissas, o empobrecimento subjetivo do Sul global e a racionalidade do neoliberalismo vêm devastando os países que se encontram na periferia e na semi-periferira da geopolítica mundial.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial)

Publicação do UOL - https://noticias.uol.com.br/colunas/coluna-entendendo-bolsonaro/2021/03/27/morticinio-da-pandemia-e-reflexo-de-guerra-contra-o-brasil.htm


terça-feira, 23 de março de 2021

REVIRAVOLTA NO CASO LULA

Nunca imaginei que o golpe de 2016 fosse começar a derreter tão rapidamente e muito menos que o universo fosse trazer justiça a Lula tão cedo. Impressionante a reviravolta no julgamento de hoje reduzindo Moro e seus associados ao seu real tamanho.

Quem diria que a Lava Jato, que surgiu em 2014 para investigar casos de corrupção, -o que é louvável-, evoluiria rapidamente para tornar-se uma aberração político-partidária-autoritária que agindo em conluio com boa parte da mídia, influiria criminosamente na eleição presidencial de 2018; além de destruir a indústria de base do país, 4,4 milhões de empregos e afugentar R$ 172 bilhões em investimentos (dados do Dieese) valor este, que equivale a 40 vezes os R$ 4,3 bilhões supostamente recuperados pela operação. 

Com isso, os cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 47,4 bilhões em impostos, sendo R$ 20,3 bilhões em contribuições sobre a folha de salários. Isso é só um detalhe do que se seguiu na política, no golpe e na eleição do genocida atualmente no poder.

Para além do desastre, espera-se agora, que os membros messiânicos do sistema judiciário que se associaram para influir na política, perseguir e assassinar reputações sejam processados e que fique claro que a mania nacional de procurar e endeusar “heróis” e “salvadores da pátria” dia sim e outro também, não é o melhor caminho.

Enfim após anos de massacre midiático em cima de uma narrativa unificada contra à esquerda, parece que as coisas começam a clarear o que ainda é muito pouco num país polarizado/imbecilizado e com a economia adoentada com o dólar a quase R$6,00, gasolina a R$5,69, arroz R$31,00 o pct de 5kg, óleo R$10,00 e uma cota diária de 3000 mortos de covid patrocinada por um psicopata, negacionista que não teve sequer competência para encomendar vacinas.
 
 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Porque não tiram o Boçalnero?


Sempre vejo pessoas inocentes e indignadas bradarem; “mas porque não tiraram o boçalnero ainda? ”
Pois bem, quando tiraram a Dilma ela estava com 8% de aprovação ou menos e quando tentaram impichar o Temer ele tinha pífios 3% e mesmo assim se segurou.
Hoje o Datafolha publicou que a aprovação do Boçal se mantém em 30%.
Muito difícil acontecer um impeachment com aprovação neste patamar e sem fortes manifestações de rua.
Agora porque ele tem 30% de aprovação mesmo depois de patrocinar esse morticínio, já é muito complicado entender, mas chutando, além dos 15% de fanáticos boçais que até suicidam se o presidente propor, somam-se os religiosos-reaças inebriados com a possibilidade de impor suas pautas medievais, mais a turma do dinheiro grosso que vem faturando bem e ainda está de olho em mais “reformas” e tem também aquele grupo que não concorda com tudo, mas acha que ele é sincerão e enxerga nele um dos seus (aff!). 
A tudo isso pode-se agregar os ruralistas/exportadores de alimentos e outros que estão super felizes ganhando muito dinheiro com o dólar a quase R$6,00.
Dane-se quem morre de fome, de covid e de raiva, desde que os negócios sigam bem, todos possam se armar e meninas vistam rosa e meninos azul.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

divagações na boca da noite

Acordei meio catatônico... às 17:54 e sentindo como se estivesse sozinho numa prisão,  privado de outros humanos e comecei a pensar nessa contradição de ser gregário que me acompanha e em certa medida atormenta.

Sempre que estou lendo, assistindo documentários, filmes etc, ou sabendo de alguma coisa nova, intrigante, etc, eu tenho um incontrolável desejo de dividir com alguém... receber um feedback, mas isso nem sempre é possível. Em parte, por vezes, não ter por perto pessoas que estejam interessadas “naquilo” e por outro lado quando há pessoas no entorno,  elas muitas vezes são do tipo (cloroquina) que dizem que astrologia é ciência, adeptas de teorias da conspiração -insuportáveis-, ou querem transformar tudo em debate superficial ou disputa de egos quando você só queria dividir, ou partilhar um fato ou a angustia trazida por aquela descoberta astronômica, uma tirada engraçada de Philip Roth, do Miró, do Machado ou uma memória do Discovery, History Channel, um som bacana do Toninho Horta, um design de uma poltrona, whatever e, não rola..., simplesmente não "acontece" na maior parte do tempo.

Hoje liguei pro meu irmão para falar sobre varias coisas e comentei sobre o assustador desaparecimento repentino do Mar de Aral que vi na BBC, porque sei que ele se interessaria e em muito acrescentaria porque é um curioso geológico e assim foi, mas é cada vez mais raro encontrar interlocutor e desconfio que o problema esteja comigo.

As vezes acontece de encontrar alguém com curiosidade, mas no mais das vezes sinto cada vez mais dificuldade de achar interlocução e deriva daí um quase vazio na alma e um tipo de silenciamento e distanciamento doloroso e progressivo. Acho que é isso que chamam de envelhecer e que vai dando uma vontade de ficar cada vez mais só com nossas próprias digressões sobre tudo que há.

Por alguma razão que não consigo entender, atualmente multiplicam-se as pessoas que só querem narrar o seu dia desinteressante -como é também o meu e da maioria dos mortais-, ou aderir a temas da moda, o que me dá vontade de tirar a vida da criatura, já que não dá pra pagar um terapeuta.

Não acho que a minha prosa seja melhor ou pior, acho apenas que estou na crise do envelhecimento e a curiosidade existencial vai ficando mais exacerbada, como o inesquecível Silva  personagem do fantástico romance “Fabrica de Espanhóis" de Valter Hugo Mãe que uma grande amiga me apresentou recentemente e que lavou minha alma nesse sentido.

Agora mesmo ando lendo Philip Roth e gostaria imensamente de falar a respeito e rir um pouco da nossa miséria humana especialmente em tempos de Covid. Acho que se ele tivesse vivo poderia escrever algo genial sobre esta comédia atual de horrores humanos.

As vezes queria ser como o Zé, meu gato (animal de estimação q. fique claro) ou uma capivara daquelas que perambulam pelo parque Tietê, sem maiores indagações, sabe!? Parecem seres etéreos vagueando entre o cotidiano e o instintivo apenas. Livres da percepção de ser  contingente e finito...

Neste momento aliás, o Zé está mordendo a minha perna pra chamar atenção porque assim como eu, ele também quer compartilhar algo e  ainda não pude parar pra falar com ele e de repente comecei a sentir o poderoso -ou fuderoso- cheiro de xixi dele. Não localizei nada ainda, mas desconfio que esse filho da puta mijou em algum lugar indevido para chamar atenção.

Bem, voltando ao assunto, hoje a minha namorada foi pra praia e pela primeira vez eu não quis ir. Achei que seria bom ter mais tempo para ler e apaziguar o espírito, ouvir minha própria voz interior, o silêncio, organizar umas coisas e pôr o pensamento em ordem, essas coisas que o Jô Soares chamaria de viadagem, antes da instalação das patrulhas, claro.

Almocei sozinho, falei com o Zé, li um pouco,  peguei no sono, despertei e depois troquei ideias com a Judith sobre o mercado editorial, adormeci novamente, li mais um pouco, falei com minha mãe, uma amiga de Itacaré e voltei a alternar leitura e soneca num ciclo preguiçoso e despreocupado.

Acordei agora a pouco por volta das 18:00hs, com má digestão, dor no peito pelos gases, meio down e subitamente me peguei pensando sobre a morte que campeia solta por aí e comecei a pensar na minha própria, o que tem acontecido muito a cada pigarro que já associo à covid e o fim eminente, engrossando os números macabros da globonews ao fim da noite. Afff!

Fui tomar um banho e pensando no que aconteceria se eu desabasse agora sob o chuveiro aberto, e fosse encontrado dias depois como aconteceu a pouco com o Ratinho no Copan.

Com a minha namorada longe, acredito que pelos próximos 5 ou 10 dias talvez ninguém me procure ou se procurar e não obtiver resposta, também não vai se incomodar a ponto de arrombar a porta.

O Zé coitado poderia beber agua do vaso sanitário por alguns dias, mas em algum momento iria sentir muita fome e começaria a miar, mas quem dá ouvidos a miados...

Então fiquei com um pouco de falta de ar e com vontade de sair para a rua, ver gente, tomar um trago, me sentir vivo e me livrar daquela sensação de ter uma bola de cabelo no estômago e então pensei, mas sair pra onde em tempos de pandemia?  Não fosse isso eu iria até a esquina entraria no primeiro boteco e arrumava conversa com alguém ou o garçom rs... Aliás por falar nisso, a Love Story fechou/faliu ontem, morreu de covid. Que tristeza!

Tentei voltar à leitura novamente mas minha mente estava povoada dessas especulações sobre a minha própria morte aqui e agora, visualizei a estupefação entre os amigos, as burocracias da finalização de uma vida, as milhares de coisas e objetos para trás... história de uma existência... brrr

Visões me vieram à mente como o exame necroscópico, a cremação, as pessoas se dispersando depois... um e outro retardatário incrédulo comentando o velório e a partir desse ponto, minha memória entre os vivos começaria a desvanecer lentamente, episódios seriam descritos de forma cada vez mais distorcida pelos esquecimentos, meu nome seria cada vez menos pronunciado, meu aniversário lembrado por um número minguante de pessoas e tudo que existiu, e fez sentido por um breve período seria vaporizado em pouco tempo assim como as roupas, objetos variados, cartas, livros, discos, fotos, pedaços de vida... que teriam que ter destinação que ninguém sabe direito qual.

Ainda pensei; será que as pessoas sairiam dali para comer um virado a paulista (com torresmo extra) em minha homenagem? ...cumprindo o ritual de quase todas as culturas em que  comer após o cerimonial de despedida de alguém, funciona como uma “celebração antropofágica destinada a reafirmar os direitos da vida sobre a morte!?”

Ri um pouco sozinho agora pensando nos torresmos extras (que meu cardiologista proibiu semana passada) e voltei para a outra questão; Quanto tempo demora para que todo vestígio deixado por alguém desapareça de vez?

Lembro que em 2007 minha mãe veio conhecer São Paulo e fui caminhar pelo centro histórico com ela e a cada  travessa, ela desfiava tudo sobre cada personagem que dava nome às ruas, conforme andávamos, com sua memória prodigiosa e eu pensava, poxa preciso virar nome de rua, é a única maneira de não desaparecer e ri novamente sozinho assaltado pela lembrança daquele dia.

Lembro de Deus -como solução-, essa nossa invenção mágica para dar sentido ao que não tem, mas isso já é outra conversa.

Bem, acho que vou tomar um willian lawson, porque a noite será longa e de vigília contra a morte, essa senhora inexorável...

Invejo as pessoas que não tem contato com seus demônios, dormem cedo e não tem nenhum pensamento além daqueles ligados puramente a sobrevivência e à própria fisiologia e vivem bem assim como as capivaras.

Conclusão: A solidão só é boa quando é assistida. Essa solidão que ninguém te liga ou lembra que você existe, não presta não.

R. R. 13.02.2021 20:32

A SENHORA E A MORTE - ANIMAÇÃO. 

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